O café desce estalando a garganta
Não me recordo de quando me
tornei tão descritivo
Quando fiquei tão discreto? Tão
prescrito?
(In)concluo.
Dia frio é o meu favorito
Para só ver e sorver assovios de
janelas
Cheio de detalhes entalhados
vivos
Nas poucas lembranças de ser tão
externo
E na doce lembrança de não ser
tão nítido
Eu resfrio as juntas do dedo
E, em segredo, junto-me ao calor
do frio.
Nos dias frios o olhar negro da
xícara nos encara mais efusivo
De relance, mas um relançe
contínuo
Realça e lança sobre nós o
próprio vício.
Há pouco de mim nas paredes da
constância
Estou totalmente, pelos quadros
na parede, absorvido
Perdido
Absorto em só detalhar o entorno
E pelas molduras robustas
perseguido.
Entorno sobre minha roupa
elegante
Um gole quente e errante de
vivência
Sinto queimar a pele
Sinto a pele ardente
Sinto, no limite extremo de minha
vida, a clemência
Divinamente escondida
A carpe: superfície individual, a
margem da doutrina, o fio do egoísmo...
O exterior, suplantando o interno
nevrálgico, me convida
Ao simples decorar das coisas,
dos ornamentos
Ao arrepio frívolo do
não-sentimento
Pois nenhuma reflexão é tão
importante quanto flexionar o sujeito, o alheio, o joelho, o cotovelo...
E me convém, agora, escrever
nesse espelho
Que se forma na superfície dura
do mim
Do mingau
Do café
Do mundo.
Bebo o resto, peço a conta, pago
e saio mudo.
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