terça-feira, 22 de abril de 2014

Estou na barriga de um monstro
Não sei se fui engolido ou se estou sendo gerado
A sombra do horror me acalcanha
Só ouço ruídos absurdos, urros desgraçados.

Talvez eu esteja já no intestino grosso
A julgar pelo odor, fui digerido
Não sei se, então, de parto ou de desgosto

Cagado serei eu um morto vivo.


O que é o espirito do mundo?
Onde está a alma desse troço?
Não está na natureza, nem nos homens
Está, naturalmente, nos destroços

No que se arruína ele se entrega
No que se configura a morte e o dano
A alma desse mundo é o que refrega
E está no monstruoso e no profano

O espirito da dor instaura vida
E o parto dessa alma rasga a pele
O apelo e o clamor do amor revelam
Que tudo o que é da dor significa

Tudo o que revolta é sentido
Tudo o que é revolta é somado
Tudo o que revolve o sofrido
É tudo o que é revólver disparado

A potência de morte é o que espera
E espreita com os seus olhos de quimera
A pedra, a água, o bicho, a besta, o deus
A morte cerra os olhos, sempre bela
Sussurrando um canto, sempre adeus

E nasce outra vez como uma fera
E tudo que exaspera é dom divino
Todo o incontrolável é dom sagrado
Desde o choro solto de um menino
Até o temporal destemperado

A chance de morrer que se instala
A cada milissegundo de alegria
Indica que a existência é uma fuga
Dos olhos dessa eterna e vil vigia

Seria o feio que supõe o belo
Se houvesse algo de bom em acreditar
Que a constante do existir é a bondade
Sentindo-nos invadir pelo penar

Extinto tudo será, não há sustento
Não existe um porquê, nem nunca existiu
O mundo é o mais perecível alimento

Da morte – essa puta que o pariu.
Dentro do corpo espinhos de cactos
Engolidos vivos, intactos
A cada gole de saliva um gosto de sangue
Todo lodo é mangue
Anzóis fincados na garganta
Puxam-me a voz
Iscas na janta
Tudo dentro do mais depravado cardápio:
Por dores, pudera, por horas...

Paro.

Intimidade

Uma varinha
De dar em lombo de guri
Treme, pouco antes de sair
Da árvore.

E o guri
De levar varinhada no lombo
Treme ao subir(fugindo) no tronco
Da árvore.

Árvore de fugir
Árvore de penar
Intimidade no amor é conhecer quem te faz chorar.

É o tremer temendo - das pernas
E o tremendo temer - das folhas
Intimidade no amor é o castigo escolher
Que doa!

Xô vê


A calçada
A poça d’água
A barra da calça molhada
As pessoas apressadas
Os guarda-chuvas em duas tomadas
Em cima guardam chuva
Em baixo, pensamentos
Vento
Homens de casacos
Mulheres de jaqueta
A criança e o passatempo
O bebê de toca rosa
Cachecol, capa e sobretudo
Um surdo-mudo falando sozinho
Um segundo de passarinho
Mulheres de minissaia
Pernas gordas respingadas
Arte temporal
Varizes e gotas de lama
Sandálias
Pés imundos
Esmaltes descascados
Calçados cansados
Mocassins
E afins
Inundação num segundo
É riqueza para se olhar
Lixo se joga no chão
Boneca a nadar
Sem os braços
Rato morto
Saco plástico
Água entrando na escola
Garota cheirando cola
Viaduto
Adulto
Maluco
Bêbado babando
Bando de trombadinhas
Trombam nas senhorinhas
Moleque a se divertir
Velha debaixo da árvore
Casca de batata pirata
Caminhão que escolhe
Molha quem se encolhe
Xingos
Mendigos dormindo
Risadas
Buzinas, silêncio do mundo
Passarela
Passa ela
Por cima da rua
Quase nua
E está frio
Vai garota do centro do Rio
Arrepio
E ela vê
E ela passa
Como o que é bom
Escada carcomida
Ferrugem nas veias da cidade
Camelô
Lonas azuis
Almas à prova d'água
Pistolas de bolha de sabão
Olha o pesado
Pesadelo
Bicicleta do velho sem emprego
Restaurante de pobre comer
A comida é joelho frio
Chinês sujo
Unha preta
Dente amarelo
Um suco de caju quente
Para empurrar a massa
Entornar no balcão
Molhar a palavra
Encharcar a sede
Inundar a alma
E, então, dizer:
- Até que é bom!
- Até que é bom!
- Até que é bom...

Chover.

Um café

O café desce estalando a garganta
Não me recordo de quando me tornei tão descritivo
Quando fiquei tão discreto? Tão prescrito?
(In)concluo.

Dia frio é o meu favorito
Para só ver e sorver assovios de janelas
Cheio de detalhes entalhados vivos
Nas poucas lembranças de ser tão externo
E na doce lembrança de não ser tão nítido
Eu resfrio as juntas do dedo
E, em segredo, junto-me ao calor do frio.

Nos dias frios o olhar negro da xícara nos encara mais efusivo
De relance, mas um relançe contínuo
Realça e lança sobre nós o próprio vício.

Há pouco de mim nas paredes da constância
Estou totalmente, pelos quadros na parede, absorvido
Perdido
Absorto em só detalhar o entorno
E pelas molduras robustas perseguido.

Entorno sobre minha roupa elegante
Um gole quente e errante de vivência
Sinto queimar a pele
Sinto a pele ardente
Sinto, no limite extremo de minha vida, a clemência
Divinamente escondida
A carpe: superfície individual, a margem da doutrina, o fio do egoísmo...

O exterior, suplantando o interno nevrálgico, me convida
Ao simples decorar das coisas, dos ornamentos
Ao arrepio frívolo do não-sentimento
Pois nenhuma reflexão é tão importante quanto flexionar o sujeito, o alheio, o joelho, o cotovelo...
E me convém, agora, escrever nesse espelho
Que se forma na superfície dura do mim
Do mingau
Do café
Do mundo.



Bebo o resto, peço a conta, pago e saio mudo.

Novo ato do novato

Dizer sem ouvir
Escrever sem revisar
De que serve nossa subjetividade
Senão para anular?

O outro sujeito
Suspeito
Malfeito
Intuito fortuito
De não se expressar.

Divagar demais pode ser devagar demais
Tanto, que tropeçaremos em nossa língua torta
Tanto, que bateremos a nossa cara em falsa porta
Tanto que a poesia, falecida, nasce morta.

Tantos poetas se escondem na Fantasia
Que se esquecem de rimar a vida com "bom dia!"
E de remar com os braços rijos
E de nadar na calmaria – Boiar é coisa para letargia!

Tantos poetas e nenhum desafio
Nenhuma novidade em seus olhares
Nenhuma solução em suas rimas
Nenhuma pista do que seria a sua via.

Nenhum deles... – pobre de mim! – Todos eles feitos de ventania–...Nenhum deles, quando se nega a dividir,

É poesia.

Lugar incomum

Entranhas contorcionistas
Estranhas tacanhas conquistas
Para quem não sai do lugar.

Preso em mim
Solto no texto
O medo é o meu pretexto

Para escrever o que não quero falar.

A praça

As crianças passam correndo...

Folheado de queijo
Esticados
No beijo, a baba
Ele acaba comendo beijo
Folheando, vez por outra, um livro surrado
Ela acaba com o beijo no meio
Para comer outro pedaço
Folheando os beijos entrecortados.

Convida pelo assovio
A passear com os pombos, o louco
Que leva nos trapos as marcas
Dos tapas e dos tombos
E tem razão de perder a razão
O louco assovia na certeza insana do tom.

Ensebado cabelo preto
De brilhantina antiga
O velho ainda tem brilho nos olhos
E nos olhos, a fadiga
E na fadiga, a constância
E Constância já faleceu.

A velha reclama, mas senta
No banco duro da praça
Não dura nada e levanta
Reclamando da graça
Graça é o seu nome.

As crianças passam correndo...

Comendo
Assoviando
Brilhando
Reclamando


...E somem.

Ruído

Menelau
Na altura da dor e do latido
Escondia sua pele
E era nutrido
Por serpentes
Carentes de ouvir.

E do porvir
Provinham suas mais duras risadas
Menelau
Guardava no que viria
A caminhada
E vivia no escondido

Do sumir.
Gosto de ver
Noutro meu ser
Outrossim
Salabim
Logo em mim
Há de ver

Você.

Léxico do picolé

- Qual é?
Não se pode perguntar!
Ninguém te deixa deixar o chá
A congelar num palito em pé
Mas a pergunta arguta estapeia
A face de cristal, nessa peleia.

- Como é?
O “como é?” estraga a capa artística
Belisca o braço de quem devaneia e vai
Achando que o não-pensar é mais
Do que o não-ser não é
Pré-socraticamente estiloso
E felizmente mente
Posto que tudo isso, por mais belo,
ainda é mimeses Platônica.

- Não!
Não é o efêmero e o inexplicável “senão”
O poema não é sandeu, nem barato como a loucura
Poema é esforço real da carne dura
Não é espirito

O poema é criatura.

Ao melhor amigo

Você quer entender não é, meu caro?
Pois, meu carro é ônibus lotado
Minha boca é oca e o papel, nublado
No prato, comida que eu mesmo fiz para mim
Nos olhos marcas arcaicas das alergias já antigas
E um antagônico sorriso bondoso eu sempre tenho a lhe ofertar

Incongruência!

Será daí que surge a sua falência?
Daqui em diante paras de me entender?
Pois, a minha intenção é que não
É que fique sempre tudo resolvido entre nós
E enquanto isso me seguro no cós de minhas calças largas
Largo-me no jeans da minha oitava série
Sério!
Lembra?
Época boa em que eramos dois bobos e lisos
Que sonhavam com as gatinhas de Chiador
Ah, doces lembranças de ter amigos sempre ao lado
Eu era confiantemente perdedor
Mas ganhávamos histórias e nos apegávamos a elas,
como no dia que agarramos os arbustos
Como se fossem os bustos de Michelle ou de Mariane
Agora, em doses esporádicas nos encontramos,
Cada vez mais estranhos

Confusos...

Tanto que não entende as agonias novas de minha escrita
Os meus espasmos laudatórios
Tremelicam os cílios, sabe como é?
De tanto ver as pessoas passarem a pé

Da janela do meu 606.

Sim-crônico

Hei de fazer isso à sua feição
- Politeísmo do Não -
Negando em qualquer idioma.

Deuses fajutos dos rebeldes
Do idiotizado axioma
Do habitual “pedir perdão”
Nosso chiclete de goma.

Devo e vou ouvir seus olhos
Habitando meus tornozelos
Lambiscado de outras orelhas
Devo e vou retê-los...

...Um dia

Sincronia sutil
Da sônica soneca do vento
Enquanto sozinho, o frio

Sozinho é o meu pensamento.

No meio do caminho

Um muro
Do outro lado do muro
A bola
Que bela é a casa do vizinho.


Antes que o cachorro a rasgue
Eu pego
Antes que o cachorro morda
Eu fujo
Antes de pular de volta
Um muro



Tinha um muro no meio do caminho.
Compromisso
Com promíscuo


É muita sacanagem!

Doce engano

Não há delícia
Não há sabor
Não há nada que me faça crer
Que eu tenha errado
Ao me indispor

Não há cocada

Que eu vá comer.

Partido

É tão triste me sentir indo embora
Que fecho a porta com cautela
Deixo entreaberta a janela
E levo o lixo para fora.

É tão triste ir sem querer
Que abaixo o som da novela
Jogo uma manta em suas pernas
E cubro, de estampadas cortinas, o sol.

É tão tarde para me despedir
Que me dispo das minhas vontades
Me disponho a sorrir e só ir
Levando meus sonhos
É tão tarde!

É tão tarde para não querer ver
Que você não liga
Não desliga
E prefere o amor de TV
E suas histórias repetidas
É tão tarde!

É estranho,
mas levo a sua angústia embora comigo
É tarde, é triste e é partido
Eu vou

Querendo não crer.

Tempo

O tempo desgasta
As solas de suas sandálias
No chão das nossas cucas
Arrasta seus pés cansadamente
E deita na rede dos sorrisos
Enrugando o canto seco
Em nossas bocas.

O tempo é o velho de chapelão
Que, melancólico, vai pela calçada
O tempo é a todo tempo
Nada.

O tempo é a ferida inflamada na perna
O mato no casco do potro
O tempo é a todo tempo

Outro.

Desleixo

Comover-me
É como ver a mim mesmo
Andando a esmo
Mesmo andando por cá.

Desamarrados tênis
Para tropeços
Amarrotadas calças
Para passar
Meias cansadas, manchadas
Nos calcanhares
Muitos lugares
E sou de nenhum lugar
Pelos na cara
A crescerem com o tempo
E pouco tempo
Para me pentear
Camisas tolas
De desenhos felizes
Caminham sós de tanto eu as usar.

Desleixo
Deixo a roupa suja no sexto
Mas recolho a minha vida da corda

Antes mesmo de ela secar.

Casca de pão

De nada me adianta
Ser inteiramente feito de broa
De café, de coisa à toa...
Se eu empapuço o papo breve

Engasgo
E na garganta não há nada
Espasmos de calçada
Alçada que me serve

Canteiro sem planta
Distancia que enerve
De nada me adianta

Dizer o que não serve.

Mofo

Almofada
Mofada e estampada
Queimando a mufa cansada
Deitado, sem fazer nada
Vendo programa do Jô

Camuflada
Mudo a bermuda manchada
De gotas grandes e enlatadas
Desgostos e de um bom Nescau

Só eu e a madrugada
Drogada e sem previsão
Só eu e a madrugada

Feita de televisão.

Diz que


Lê Mim que
Nunca serei

Leminski.

Dose

Um gole de aguardente
Aguardante veneno
O esperado “de repente”
De rompante condeno
Derrapante calhambeque
Alambique de feno
Transformo-me num delinquente
Delatando boleros.

Transborda a alma corrente
Grilhões de mil vis austeros
Aos teus pés descalçados
Descompassar dos cadernos
Bonitas frases rimadas
Odes ao ódio sincero
Que encerro ao cerro dos punhos
Ao serrar do visgo do erro
Canteiro de vidas jogadas
Cruel cemitério do medo
Vícios do início do vício
Suplícios do álcool que bebo.

Sou mais vivo quando erro
Mais dono quando entrego
Sou mais eu quando me nego
Soldado de chumbo
No fundo do mar
Ainda caindo.

Vou descendo vertigem
Descendendo de virgens
Decadente de origens
Dessas dos santos que fingem
E infringem dosando fuligens
Que seus mantos brancos dirigem.


Rasga-me o último gole
Amei-o...

No corpo cheio
Nu
No copo vazio
Cru
Meio que me nomeio

Um.